“ver a maya saudável foi a forma de o universo me incluir em um projeto que transforma vidas”

Mesmo sem me tornar o “professor Pardal” que Sergio Mascarenhas precisava para desenvolver a solução que viabiliza a monitorização não-invasiva da pressão intracraniana, sinto-me realizada em fazer parte dessa história por meio da Maya

*Nelci Zanon Collange em depoimento à jornalista Camila Galvez, da agência essense

Era uma tarde de domingo, há mais ou menos 10 anos, quando o físico e químico Sergio Mascarenhas se sentou no sofá da minha casa. Ele chegou até mim porque tinha um sobrinho ortopedista que trabalhava comigo em um grupo de pesquisas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Buscava alguém que o ajudasse a desenvolver um equipamento capaz de colocar em prática sua mais recente descoberta: a possibilidade de medir a complacência e pressão intracranianas (PIC) por meio da interpretação da morfologia do pulso da PIC. A principal lembrança que guardei desse dia foi o brilho nos olhos do professor. Me fez pensar: ‘eu quero ser assim quando crescer.’

Aquele, porém, não era o meu momento. Eu estava envolvida em inúmeras atividades de docência e pesquisa, tentando equilibrá-las com meu trabalho como neurocirurgiã pediátrica em diferentes hospitais, como é a realidade da medicina no Brasil. Se eu estivesse em um país desenvolvido, talvez tivesse uma rotina mais organizada… de manhã, atenderia pacientes no hospital, e à tarde teria tempo para estudar, pesquisar, preparar minhas aulas, tudo no mesmo ambiente. Um sonho. Talvez nessa situação poderia ter aceitado o convite do professor Sergio. Talvez não – quem sabe?

Eu não fui o ‘professor Pardal’ que Sergio precisava naquela tarde de domingo, mas agora me sinto parte daquela descoberta tão relevante para o mundo. E a minha participação tem nome, sobrenome e um rosto de criança: Maya Pereira Azevedo.

Um caso inquietante

Maya chegou até mim em uma situação que nenhuma criança deveria estar: ela sentia dor. As dores de cabeça, aliás, faziam parte de sua rotina desde o nascimento, após 32 semanas de uma gravidez gemelar e com um diagnóstico de hidrocefalia.

Aos 5 anos, o prontuário médico de Maya acumulava números: ela já havia passado por 22 internações, 5 cirurgias e mais de 40 exames de imagem, entre raios-X, ressonâncias magnéticas e tomografias. Tudo isso pouco ajudou a identificar o motivo pelo qual a dor não parava – e impedia que Maya e toda a sua família tivessem uma rotina saudável.

O caso me inquietava muito, mas eu não tinha uma resposta. Maya usava uma válvula para hidrocefalia no cérebro, e as dores pareciam melhorar a cada procedimento para aliviar a pressão intracraniana, mas pouco tempo depois, ela voltava ao mesmo quadro.

Alguns colegas pediatras se perguntavam se as dores não eram psicológicas. Eu cheguei a me perguntar também. Mesmo o exame de fundo de olho feito pelo oftalmologista não tinha qualquer alteração significativa. Clinicamente, não fazia sentido. Até que resolvemos usar a solução da brain4care.

Uma curva atípica

A primeira vez que monitorizamos a Maya com o equipamento, ainda no hospital, a curva do pulso da PIC estava dentro do esperado. Mas, ao contrário das internações anteriores, a solução possibilitou que a Maya fosse monitorada, também, em casa, exatamente quando as dores de cabeça surgiam – em geral, à noite.

Foi o que fez a diferença para o caso dela. Descobrimos, assim, o comportamento atípico da curva: antes do quadro de dor, ela se apresentava normal. Durante, estava alterada. E, depois que a dor acabava, era justamente quando a curva estava melhor – esse era, em geral, o momento em que Maya estava no hospital. Por isso, nenhum exame de imagem conseguia capturar o real estado da pressão intracraniana, o que dificultava o diagnóstico e a tomada de decisão sobre os melhores procedimentos.

Sem a solução da brain4care, a alternativa seria submeter a Maya a uma internação prolongada em uma UTI, a fim de monitorizá-la por meio de um dispositivo instalado cirurgicamente no cérebro. Além de todos os riscos óbvios envolvidos em um procedimento desse tipo em uma criança, o custo seria altíssimo.

Não precisamos de nada disso.

Maya foi submetida a uma sexta cirurgia e a dor finalmente deu trégua. Agora ela pode correr, brincar e sonhar em ser astronauta ou ‘médica de bichos’. Vê-la se tornar uma criança saudável foi a forma de o universo me incluir em um projeto que transforma a vida de inúmeras pessoas. Foi, também, um meio de me abençoar mesmo depois de não ter abraçado a ideia daquele professor sentado no sofá da minha sala em uma tarde de domingo.

*Nelci Zanon Collange é doutora em neurocirurgia pediátrica, coordenadora da equipe do Centro de Neurocirurgia Pediátrica (Cenepe), presidente do comitê de neurocirurgia pediátrica da Federação Mundial das Sociedades de Neurocirurgia (World Federation of Neurosurgical Societies – WFNS), presidente da Comissão das Mulheres na Neurocirurgia da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) e vice-presidente do comitê educacional da Sociedade Internacional de Neurocirurgia Pediátrica (International Society for Pediatric Neurosurgery – ISPN)

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